O Bem Dotado: o Homem de Itu (1978)

Posted on 04/08/2011 por

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Outra pornochanchada digna do termo, este filme surgiu também – a exemplo do clássico “Histórias que Nossas Babás Não Contavam” – numa época em que a única coisa não recriminada abertamente no Brasil pelo regime político então vigente era o sexo.  E, para dar continuidade ao projeto de não deixar ao relento filmes tão importantes para a história do cinema nacional e mundial, este filme não poderia ficar de fora.

Antes de começar a revê-lo para escrever esta crítica (confesso que não me lembrava de nada além de flashes isolados de algumas cenas), fiz uma aposta que tinha por objetivo medir a qualidade intelectual e cultural do filme: quantos minutos de projeção seriam necessários para que a primeira putaria entrasse em cena.  Para minha surpresa, esse tempo foi incrivelmente extenso (levando-se em consideração filmes desse porte, obviamente): um mísero minuto, ou melhor, sessenta e poucos segundos inteiros sem uma única putaria – e, entenda-se por putaria, qualquer cena apelativa, o que, neste caso, foi um mar de mulheres seminuas tomando banho de rio.

E, se o filme é de sacanagem e foi filmado no fim dos anos 1970/início dos anos 1980, não se pode esperar outra coisa senão ter Nuno Leal Maia em cena.  O ator, quase que onipresente nas pornochanchadas da época, interpreta muito bem – guardadas as devidas proporções com a qualidade do filme em geral – o papel principal, de um jeca nascido e criado em Itu, cidade do interior paulista famosa por sua mania de grandeza, sugestivamente situada a menos de uma hora de Campinas, cidade do interior paulista famosa por…  Mas como eu ia dizendo?  Ah, sim.  De um jeca nascido e criado em Itu, cujos atributos físicos faziam jus à fama da cidade-natal.

Os ourtos atores…  Bem, os outros atores não valem nem um centavo no filme.  Para ser honesto, não fosse haver uma “japonesa” e uma “mulata”, eu acharia que todas as mulheres eram as mesmas – aliás, parece ser exatamente essa a ideia do diretor, desidentificar as mulheres, nivelando todas pelo mesmo impulso sexual.  Mas o sotaque da Japa é ridículo, assim como a “resistência” que ela impõe à sedução do recém-desvirginado Ituano Bem Dotado que a elege, lá pelas tantas, como alvo da vez (vejam o grau da resistência dela na foto abaixo).

O filme não deve ser visto pelas suas atuações mas sim – se é que se pode dizer isso – pela crônica de costumes que ele tenta narrar.  São os valores por trás da alta casta da sociedade paulista que estão expostos ali: as relações proibidas entre patrões e empregados domésticos, a pouca castidade desses empregados e os objetivos que os levam a manter vidas assim, maridos traídos (a cena do marido que pega a mulher com Lírio na cama é impagável), aparências e bastidores de conversas femininas.

O mais interessante do filme são os carros: opalão (irado!), passat, fusca, chevete, táxis paulistanos brancos e abóbora, estão todos ali expostos nas cenas, sem pudor de marcas ou modelos.  Nesse ponto, o filme se revela um belo registro da memória automobilística brasileira.  Só por este ponto!

A trilha sonora do filme não é nada além de tosca.  A começar pelo fundo musical presente em quase todas as cenas de notas eletrônicas: “tóin-tóin-tóin…”  Chega a ser irritante e não acrescenta nada ao incrível “suspense” de algumas cenas.  Pior ainda quando, depois dessa sucessão irritantes de notas eletrônicas dois atores começam uma cena (mais ou menos) tórrida ao som de “Perigosa“, da Rita Lee.  Igualmente ridícula é a ideia de fazer a terra tremer quando as mulheres que o Ituano Lírio pega durante o filme atingem o ápice da satisfação de seus desejos.  Na primeira, você dá uma risadinha; na segunda, acha que é palhaçadinha; na terceira, você pula a cena sumariamente.  A cena do cachorro desmaiado também é patética – vergonha alheia do cachorro!

Outra cena histórica do filme é aquela onde uma bichinha diz que “Campinas não é interior, Campinas é a glória!”  Nada mais hilário, nada mais apropriado.  Aliás, de frases de efeito o filme está cheio.  Outra filosofia de buteco incrível imortalizada na película é “porque eu sou uma mulher de caráter.  Trair o marido vá lá, mas nunca trair o amante.”  Do meio para o fim do filme, várias piadinhas de duplo sentido horrorosas vêm à tona também.  A pior de todas é a da armadura e do gongo (vejam o filme para descobrir/lembrar do que estou falando).

Engraçado mesmo só o discurso final da atriz da última cena e do narrador do filme.  A sutileza da piada que ele conta é atípica e vale a pena.

Nota: 

Posted in: Comédia