Terra de Ninguém (Land of the Blind) 2006

Posted on 25/05/2011 por

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Sinopse: Memórias de um ex-soldado que ajudou um prisioneiro político a derrubar o tirano em seu país.

Comentários: Uma sátira política sobre regimes ditatoriais. Assim pode ser definido Terra de Ninguém, uma obra que traz a herança dos bons filmes sobre sociedades distópicas. Pode-se dizer que ele se situa entre 1984 (brutal película baseada na obra de George Orwell, produzida no mesmo ano de seu título) e Brazil (genial e debochado filme de Terry Gilliam, de 1985), colocando no chinelo recentes “aventuras” cinematográficas nessa seara, como V de Vingança (2006) e Equilibrium (2002).

O filme se passa em algum ponto do século XX (talvez na década de 60 ou 70), em um país desconhecido, onde o tirano Maximilian II (Tom Hollander), conduz uma extravagante ditadura de direita após a morte do governante anterior: seu pai, um fascista inspirado em Mussolini. Neste cenário, o soldado Joe (Ralph Fiennes, em excelente atuação), transferido para a carceragem de uma espécie de “DOPS”, passa a ter contato com Thorne (Donald Shutherland, sempre bem), um ex-professor e líder da oposição que fora alçado pelo regime – e pela mídia – à posição de inimigo público nº 1 do povo sob a acusação de promover atentados terroristas.

O filme dá alguns saltos temporais (indicados apenas por uma contagem de anos), onde vemos um processo de pseudo-abertura política que leva à libertação de Thorne e à ascenção hierárquica de Joe: este passa de carcereiro a agente das forças secretas e, finalmente, a oficial responsável pela segurança no palácio presidencial.

Vendo de perto as aberrações do regime de Maximilian II, Joe acaba facilitando a invasão do palácio por Thorne e seus seguidores. Estes simulam um julgamento e executam o tirano e a primeira dama (Lara Flynn Boyle), assumindo o governo. Mas Joe não contava que Thorne, chegando ao poder, manteria uma ditadura até pior do que a anterior.

Apesar de ter certeza que agira corretamente quando participou da derrubada do regime anterior, Joe se dá conta de outros males que o governo de Thorne trouxe à sociedade, como proibição de comer carne, obrigatoriedade do uso de xador por mulheres, etc. E, mesmo alçado à categoria de ícone da revolução perante as massas, ele se recusa a assinar um termo de lealdade ao novo governo, sendo enviado a um campo de “reeducação”, para que, através de surras, humilhações e outras torturas psicológicas, vislumbre as benesses do “sistema”.

Escrito e dirigido pelo norte-americano Robert Edwards (um ex-oficial do exército norte-americano que estudou com Barack Obama no colegial), o filme recebeu algumas críticas, sendo apontado como artisticamente pretencioso e acusado de contar uma história simplória e previsível. Também foi achincalhado por esquerdistas mundo afora por retratar uma ditadura ainda pior na segunda metade do filme – quando Thorne implanta um regime totalitário similar ao stalinismo. Particularmente, não endosso essas críticas.

Não vejo com maus olhos um filme que tenta fugir ao lugar comum através de artifícios “intelectualizados” – no caso, citações literárias e uso de metáforas e alegorias. Tampouco acho que o roteiro seja simplório. Já sua previsibilidade é óbvia, visto que o filme começa pelo final, com um Joe aprisionado questionando seus atos que levaram àquela situação. Ou seja, já entrega de cara o que vai acontecer.

Sobre ser uma crítica às ideologias de esquerda, vejo como totalmente equivocada essa colocação. O filme é uma crítica a regimes totalitários, ponto. Sejam eles de esquerda, ou de direita, o filme nos mostra o lado ruim de ambos os extremos do espectro político. Aliás, o cineasta até brinca com uma inversão de pré conceitos: enquanto o Estado aparentasse ser laico durante o governo de Maximilian II, na ditadura esquerdista de Thorne, apresenta traços de fundamentalismo religioso (normalmente, os governos de extrema direita são caracterizados pela associação com uma religião; os de esquerda, pelo confronto com dogmas religiosos).

Também é interessante ver como o autor retratou o déspota Maximiliano II: um aficionado por cinema, que dirige filmes de ação de baixa qualidade, casado com uma “diva” aposentada, e que coloca no parlamento pessoas advindas da indústria do entretenimento. A cena em que um montador (editor de filmes), acorrentado e recebendo choques elétricos, tenta explicar ao ditador/diretor que não há como aumentar a duração de uma cena pois não existem mais frames disponíveis é hilária.

Um simbolismo presente durante toda a película é a figura do elefante. Além do uso de imagens do animal retiradas de filmes antigos e de servir de símbolo do governo de Thorne, o paquiderme aparece ainda em uma fábula contada por este sobre cegos tateando um elefante – aqui um link com o nome original do filme, Land of the Blind.

Particularmente, interpreto a figura do elefante como uma metáfora à preservação da memória, pois o que os regimes totalitários fazem é justamente destruir o registro dos fatos para “reescrever a história” da forma que lhes melhor convém. Entretanto, alguns entenderam tratar-se de uma crítica ao partido Republicano dos EUA (cujo símbolo é um elefante). Não vejo muito sentido nisso, até por que esse partido norte-americano é o que abriga membros com ideologias mais de direita daquele país, enquanto, no filme, o elefante é o logotipo do grupo de extrema esquerda.

No todo, Terra de Ninguém é um filme bem interessante, recomendado não só aos apreciadores da sétima arte, mas também àqueles antenados com as movimentações políticas nas sociedades modernas.

Concluo observando que, como de praxe, os distribuidores nacionais “mataram” o título original por motivos inexplicáveis. O título do filme, no Brasil (Terra de Ninguém), além de não ter o mesmo impacto que o original, ainda gera confusão por se tratar do mesmo nome dado por aqui ao clássico Badlands (1973) de Terrence Malick. O que custaria apenas traduzir o original?

Nota:

Ficha Técnica:

Título Original: Land of the Blind
Título Nacional: Terra de Ninguém
Direção: Robert Edwards
Elenco Principal: Ralph Fiennes, Donald Sutherland, Tom Hollander, Lara Flynn Boyle
Ano: 2006
País: EUA e Reino Unido
Duração: 110 min

Posted in: Comédia, Drama