Análise Interpretativa: Crash – Estranhos Prazeres

Posted on 07/05/2011 por

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Outra das antigas “análises interpretativas” escritas para o NSI Cine Análise (essa é do início de 2002).

Aviso: por se propor a fazer interpretações subjetivas do filme, o texto abaixo revela diversos acontecimentos, inclusive o final. Portanto, recomendo que assistam o filme antes de ler.

“Crash – Estranhos Prazeres” (CRASH – CAN/FRA/EUA, 1996)

Dir.: David Cronenberg

O (então) polêmico diretor canadense David Cronenberg nos mostra em CRASH a incansável busca do ser humano pela realização sexual. Baseada no livro 1973 de J.G. Ballard, podemos dizer que a história aborda o que se imaginava à época por extremo da sexualidade humana no final do século XX (um dos slogans do filme é “Love in the dying moments of the twentieth century”), mostrando um círculo de pessoas com um fetiche bastante incomum, até repugnante aos olhos da sociedade como um todo.

A película abre em um hangar, numa cena onde Catherine Ballard (personagem interpretada pela belíssima Débora Unger) está em vias de uma relação sexual. Mas há algo de estranho nessa transa: o parceiro sexual, de fato, são os aviões ali presentes. Ela se despe para eles, esfregando os seios na fuselagem de uma das aeronaves. Eis que um homem, mero canalizador da relação, aparece por trás e consuma o ato. Entretanto em momento algum Catherine se vira e encara seu amante humano, atendo-se apenas a acariciar a máquina, com um vago olhar de insatisfação.

Um corte abrupto nos mostra um painel de um carro. Quando a câmera se distancia, podemos perceber que é apenas uma peça do carro, levado por um homem em um ambiente que lembra a linha de montagem de automóveis. Na verdade, trata-se de um estúdio de TV onde está sendo rodada uma produção da qual o personagem central, James Ballard (interpretado por James Spader), o marido de Catherine, é o produtor. James encontra-se em uma sala de equipamentos fazendo sexo com uma assistente (?) oriental, quando é interrompido por outro assistente de produção. Coincidência ou não, o fato do set de filmagem se assemelhar à uma linha de montagem, e a assistente ser oriental, pode ser interpretado como uma alusão à rivalidade entre as industrias automobilísticas americana e japonesa. Aqui temos James, nosso “anti-herói” americano, “detonando” uma insignificante assistente oriental.

Na cena seguinte, vemos o casal Ballard juntos pela primeira vez no filme, conversando sobre suas aventuras (ou desventuras) extra-conjugais daquele dia. Neste ponto é mostrado ao espectador que estamos diante de um casal extremamente liberal, onde cada um busca, a qualquer preço, a sua realização sexual pessoal (um ponto congruente com a tendência individualista da década de noventa).

Ambos comentam que o sexo que fizeram naquele dia foi insatisfatório e, na varanda de seu apartamento, tendo como testemunha apenas o frio e ritmado tráfego nas inúmeras “highways” a sua frente, iniciam mais uma frustrada tentativa sexual.

Prosseguindo na trama, James se envolve em um grave acidente de carro que irá colocar o casal em contato com um novo mundo de fetiches bizarros, prato cheio para suas aspirações sexuais. O próprio ambiente pós-colisão exala uma mórbida sensualidade, com James fitando o cadáver inerte ao seu lado (se observarmos atenciosamente, a mão do morto apresenta algumas cicatrizes, ficando subentendido que o mesmo já havia se acidentado outras vezes), e depois, os seios da Dra. Helen Remington (Holly Hunter), esposa do falecido. Detalhe: a mão do marido da doutora, repleta de cicatrizes, levanta a dúvida se este não teria colidido propositalmente no carro de James, ao perceber que este vinha pela contra-mão.

Cronenberg, através de imagens grotescas e perturbadoras (uma marca presente em toda sua obra), introduz sua temática carnal no universo até então psico-social do filme.

É no hospital que James tem o primeiro contato com a Dra. Remington e Vaughan (Elias Koteas). Também no hospital, entra em cena o apetite sexual do casal alimentado pelos aspectos mórbidos do acidente, quando Catherine masturba James, descrevendo o estado do carro após a colisão.

Apesar de James ter supostamente causado o acidente que levou à morte do marido da Dra. Remington, esta paradoxalmente começa a se sentir atraída por ele, a ponto de, num espaço de horas, suas emoções mudarem de desprezo e revolta à total atração física – ambos fazem sexo no carro após mais uma batida.

Interessante são as observações de James e da Dra. Remington sobre o aumento do tráfego, uma atitude comum nas pessoas que passaram por acidentes de carros. Entretanto essa cena serve para marcar as diferenças básicas entre os dois personagens: enquanto Helen coloca o sinto de segurança (é uma profissional de saúde, se atendo a um lado mais racional), James se sente desconfortável com este e o tira (um profissional do meio artístico, representando a emoção, extremamente vinculado à idéia de liberdade). Em seguida, o carro bate, mas ambos estão seguros.

Helen introduz James no estranho mundo dos aficionados em acidentes de carro, onde Vaughan é uma espécie de líder. Este, já no início, demonstra atração física por James, que a princípio, finge não perceber. É uma situação bastante curiosa, uma vez que Vaughan faz a linha “macho dominante”.

Mas será a própria Catherine, esposa de James, quem irá ativar esse lado homossexual do marido, em uma cena onde esta, penetrada por trás, o induz a uma simulação de um ato sexual com Vaughan. Catherine sussura “imagens” para que James imagine que está fazendo sexo com Vaughan. Atente à iluminação nesta cena, que visa masculinizar o escultural corpo da atriz.

James entra em contato também com outras vítimas de acidentes de carro, passando a fazer parte do grupo que tem como hábitos se excitar assistindo vídeos de colisões, fazer sexo dentro de carros, etc.

Uma parte interessante é quando Vaughan revela a James seu real projeto, viver todas as emoções geradas em acidentes de trânsito. Vaughan ridiculariza um projeto anterior, a remodelação do corpo humano através da tecnologia moderna, uma visão bem mais “Cronenberguiana” dos acontecimentos. Tais considerações podem ser interpretadas como um escárnio do diretor sobre si mesmo, pois tal temática é abertamente associada a sua obra (“Vídeodrome”, “Shivers”, “Gêmeos – Mórbida Semelhança” e até mesmo o menos autoral “A Mosca”).

Prosseguindo, James, Catherine e Vaughan presenciam mais um acidente de trânsito (na verdade um acidente real provocado por uma encenação de um acidente famoso feita pelo dublê-parceiro de Vaughan). O trio fica excitado com o ambiente de ferro retorcido e corpso feridos, e James, como que oferecendo sua esposa, os leva a um lava-jato, onde Vaughan possui violentamente Catherine. James, no papel de voyer, apenas observa o grosseiro homem “violentar” sua esposa (mais um demonstração de buscad do prazer pessoal através do individualismo).

Em cena posterior, após James ter finalmente quebrado o obstáculo pessoal da homossexualidade masculina (simbolizado na aquisição das tatuagens) que o impedia de confrontar Vaughan, os dois finalmente se relacionam. Mas apesar a bruta aparência do personagem de Elias Koteas, este assume um papel passivo na relação sexual.

Após o ato, James vaga até um ferro velho, e entra dentro de um carro destruído. Vaughan, dirigindo outro carro, colide diversas vezes na sucata onde James se encontra, demonstrando a retomada da posição de macho dominante. Não deixa de ser irônica essa inversão de papéis.

Junto novamente, o casal James e Catherine é perseguido por Vaughan em uma auto-estrada. Talvez por ciúme, ou pela emoção – seu projeto – este acaba encontrando seu destino fatal.

O diretor adiciona outro elemento com a introdução da cena de lesbianismo no carro do então falecido Vaughan entre as personagens de Holly Hunter e Rosana Arquette. Tal cena mostra a futilidade da busca sexual das personagens, que utilizam o souvenir macabro – o carro – como catalizador de seus apetites sexuais, não demonstrando qualquer ressentimento em relação à perda de seu “líder”.

Finalmente, James encarna a figura de Vaughan, e com o carro do falecido, persegue Catherine em uma auto-estrada. O carro dela capota, e, quando James chega ao local do acidente, ambos começam a fazer sexo, indicando que a busca do casal pela realização sexual está longe de terminar.

Definitivamente um dos filmes mais perturbadores do diretor. Necessita de muita atenção (e talvez tolerância, dependendo de quem assiste) para se chegar a uma análise profunda.

Fábio S. Ribeiro, 12/03/2002

Nota:

Posted in: Drama, Suspense