Histórias que Nossas Babás Não Contavam (1979)

Posted on 06/04/2011 por

5


No ano que eu nasci, outra pérola chegou ao mundo.  Essa película reflete bem o estilo de cinema praticado no Brasil daquela época.  O baixo incentivo à inventividade cultural era o reflexo direto do regime político-repressivo que vigorava no país, após sucessivos governos de uma ditadura militar segurarem as rédeas do país por quinze anos.  Não se podia pensar nada, em termos de cultura, exceto abobrinhas que pouco serviam ao crescimento espiritual da sociedade.  O sexo, ao que parece, era o tema que sofria a forma mais branda de censura, ficando limitado à exibição privada, exclusiva para adultos.  Outras formas de manifestação, além de sofrerem censura do governo, resultavam também na perseguição política de seus autores – tanto é assim que muitos deles exilaram-se em outros países durante aqueles anos de chumbo.  É nesse espírito que a sátira “Histórias que Nossas Babás Não Contavam” estreou em 1979, em pleno governo Figueiredo.

Não há melhor definição para esse filme do que a palavra “pornochanchada”: a chanchada pornográfica.  Além da paródia com a clássica história da Branca de Neve (chamada no filme, ironicamnete, de Clara das Neves), compilada originalmente pelos Irmãos Grimm, estrelada de maneira tosca por atores de segunda linha da cena nacional da época (os melhores apenas faziam novelas), elementos de perversão sexual foram inseridos em praticamente todas as cenas do filme.  É um tal de peito aparecendo pra cá, gente se esfregando pra lá que mais se parece com as cenas da mente doentia de um adolescente de 14 anos desesperado por sexo.

O filme apresenta suas credenciais na música de entrada, que anuncia o “lado B” das histórias ouvidas na infância.  Trata-se de um jingle de melodia óbvia mas com letra apimentada, narrativa, pobre, que nada faz além de anunciar que os contos da carochinha aconteceram, na verdade, de uma forma bem diferente daquela que o espectador ouviu de sua babá na tenra infância.  O filme vai, então, lhe desvendar os olhos e mostrar como é a realidade dos contos de fada: repleta de putaria, pervertida como é a mente humana.

Dali para frente, excetuando os três primeiros minutos de projeção, o filme é pura sacanagem.  Não é putaria, porque não há nenhuma genitália aparente: é sacanagem mesmo, gostosa e bem humorada.  Gente pelada, situações inusitadas, humor leve e bobinho, desejos e traições escancaradas, rala-rala, esfrega-esfrega, mão boba, uma perversão sem fim.  As situações são toscas, os trocadilhos – sempre com duplo sentido óbvio – são horrorosos…  E quando você acha que já viu de tudo, surge um anão viado na tela (bichona mesmo!) reclamando que a chegada da Branca de Neve na casa dos anões acabou com o seu parquinho de diversão particular.

O anão viado é o de touca rosa, na parte de baixo da foto

O anão viado é o de touca rosa, na parte de baixo da foto

Por falar no anão viado, o filme apresenta personagens para todos os gostos, classes e tribos: tem a mulata gostosa (personagem da Branca de Neve, que elevou Adele Fátima meteoricamente ao estrelato do imaginário nacional e internacional, estereótipo da mulata gostosa brasileira e dona de um corpo escultural a atemporal), o anão viado, o rei corno, a madrasta ninfomaníaca, o príncipe em dúvida (eternamente em dúvida), o caçador que só quer se dar bem (interpretado por ninguém menos que Costinha), os nobres pega-ning, os anões tarados e um espelho bichinha, melhor amigo da madrasta ninfomaníaca, que retrata bem essa relação de boa cordialidade entre mulheres e seus cabelereiros.  Fosse homem-homem, o espelho viveria frustrado por não poder comer a madrasta.

Óbvio que, no final, todos vivem felizes para sempre.  Cada um ao seu jeito – e ninguém tem nada a ver com isso.

Nota: 

Posted in: Comédia