Análise Interpretativa: À Beira da Loucura (1995)

Posted on 29/03/2011 por

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Mais uma das antigas “análises interpretativas” escritas para o NSI Cine Análise (essa é do início de 2003).

Aviso: por se propor a fazer interpretações subjetivas do filme, o texto abaixo revela diversos acontecimentos, inclusive o final. Portanto, recomendo que assistam o filme antes de ler.

Análise do filme “À Beira da Loucura”

(In the Mouth of Madness, 1995)

Dir.: John Carpenter

Por Fábio S. Ribeiro

 

I. Introdução

O cineasta norte-americano John Carpenter é considerado por muitos um mestre do cinema de horror, a despeito de alguns de seus filmes pertencerem a outros gêneros, como a aventura e ação, a ficção científica e até mesmo a comédia. Entretanto, suas maiores influências são os westerns das décadas de 40 e 50, em especial os dirigidos por Howard Hawks.

“À Beira da Loucura”, tido por muitos como seu filme mais autoral, é o que mais se afasta da influência dos westerns. Carpenter assume o rótulo de “mestre do horror”, e vai buscar influências na obra de outro grande mestre do gênero, o escritor do início do século XX, H. P. Lovecraft.

O filme de Carpenter pode ser analisado como uma parábola sobre a criação artística e as responsabilidades que este poder de criar implicam, experiência apresentada através de um esquema de negações e afirmações do autor durante a estória, algumas explícitas, outras não.

O primeiro exemplo de negação é explícita, e se dá logo no início do filme, quando, no hospício, começa a tocar uma música ambiente e o protagonista resmunga “Oh, não, não os Carpenters também…”. Trata-se de uma clara alusão do diretor ao seu próprio nome, o mesmo da dupla pop-romântica formada pelos irmãos Carpenters na década de 70. É uma espécie de segundo alerta aos espectadores: este é um filme de John Carpenter! (o primeiro alerta já é feito nos créditos iniciais: “John Carpenter’s In the Mouth of Madness”).

II. Além da beira da loucura

O filme começa com o personagem John Trent (Sam Neill) sendo internado em um manicômio. Como a maioria dos loucos, ele agride os enfermeiros na tentativa de se libertar, alegando não ser insano.

Após um lapso de tempo, vemos Trent aceitando sua condição de louco, pintando cruzes sobre as paredes do quarto acolchoado onde está preso. Quando o psiquiatra (David Warner) chega para entrevistá-lo, ele narra sua história.

John Trent era um bem sucedido detetive particular, especializado em detectar fraudes à companhias de seguro. Ele é contratado para investigar o caso de um segurado de grande porte, uma editora de livros. O escritor de livros de terror Sutter Cane (Jurgen Prochnow) desapareceu com sua mais recente obra às vésperas de ser publicada e aguardada ansiosamente pelos fãs.

Sutter Cane é um verdadeiro fenômeno literário. Seus livros chegam a causar reações histéricas nos leitores. Podemos perceber aqui uma certa crítica do diretor à idolatria extrema a artistas por parte das massas.

III. A Investigação

Trent acredita que o desaparecimento de Cane trata-se de uma jogada de marketing da editora para aumentar o mito em torno do escritor, e conseqüentemente, as vendas de seu novo livro. Empenhado em desmascarar a farsa, o detetive começa sua investigação lendo todos os livros de Cane. Observando uma linha vermelha que segue o mesmo padrão nas capas de todos os livros, ele descobre um mapa camuflado, apontando a localização de uma cidade que ele deduz ser Hobb’s End, a cidade fictícia onde se passam as estórias. Ele é enviado junto com a editora de Cane, Linda Styles (Julie Carmen), para investigar a cidade.

Durante a viagem, Trent e Styles têm uma conversa sobre realidade/ficção e sanidade/insanidade. Ela prevê o desfecho do detetive – que já pudemos ver no início do filme – com idéias que nos remetem ao conto “O Alienista” de Machado de Assis: “sanidade e insanidade podem mudar de lado se os loucos se tornarem maioria”.

Como que justificando a natureza de sua criação autoral, Carpenter destila suas razões através de Styles, enquanto relega o papel de cético à Trent, que menospreza a obra de Cane, por ela ser extremamente ficcional – mesmo posicionamento da grande maioria das pessoas em relação ao gênero “terror”. Assim, o cineasta dialoga com os detratores de sua obra, fazendo da editora a sua porta-voz. Ela explica que o prazer em admirar esse tipo de literatura está em imaginar que o ponto de vista do autor é real.

É curioso que o protagonista do filme, o herói escolhido por Carpenter para enfrentar as forças do mal, seja a personificação das idéias dos inimigos de sua obra. Podemos interpretar tal escolha, talvez, como mais uma auto-negação dentro da narrativa lúdica do filme.

 

IV. Bem vindo à Hobb’s End

Após uma seqüência bastante irreal onde a estrada desaparece e o carro flutua sob as nuvens (uma provocação aos detratores do cinema fantástico, uma afirmação do poder autoral absoluto, ou ambos?), o casal finalmente encontra Hobb’s End. A cidade é exatamente como descrita nos livros de Cane, incluindo os personagens.

Styles percebe que os acontecimentos estão se desenrolando exatamente como nos livros, mas o cético Trent acha que tudo não passa de encenação, montada pela companhia para aumentar a publicidade do novo livro.

Na estória escrita por Cane, todas as crianças da cidade ficam possuídas por algo, e passam a cometer atrocidades. Os habitantes da cidade, semi-conscientes de suas condições de marionetes de Cane, culpam o escritor por todos os acontecimentos. Este encontra-se dentro de uma enorme catedral em estilo otomano, totalmente inadequada à arquitetura de uma pequena cidade situada na Nova Inglaterra. A presença dessa catedral, além de ser mais uma afirmação do poder do autor, trata-se de uma referência “invertida” ao filme “The Devil’s Rain” (1975), de Robert Fuest. Naquele filme, havia uma igreja construída em estilo arquitetônico da Nova Inglaterra, porém situada no meio de uma ‘cidade fantasma’ do oeste norte-americano. O filme de Fuest também tem como enredo principal a dominação do mundo por forças demoníacas.

Styles foge e vai ao encontro de Cane. Ele a faz ler o livro, revelando o grande segredo: o escritor esteve preparando o mundo, através de seus livros, para a chegada de criaturas da escuridão (demônios?). Após ler o livro e compreender que nada mais é do que uma das ferramentas criadas por Cane, Styles enlouquece.

Mais acontecimento estranhos, como a aparição de criaturas bizarras, começam a fazer Trent duvidar de suas convicções, mas sem perder sua natureza cética – a negação do poder de criação.

Em uma cena em particular, ele encontra um dos cidadãos prestes a cometer suicídio, que se justifica: “eu tenho que fazer isso; ‘ele’ me escreveu desse jeito”. É o confronto entre a afirmação (poder autoral) e a negação (Trent).

O detetive tenta fugir da cidade, mas a estrada sempre o traz de volta. Após diversas tentativas, ele direciona o carro rumo à multidão, mas desvia quando Styles aparece inesperadamente na sua frente. O carro colide, e Trent fica inconsciente.

V. Criador e Criatura

Trent recobra a consciência dentro de uma cabine de confissão. Do outro lado, uma forte luz anuncia a chegada de seu criador. Mais uma vez, Capenter utiliza um personagem – agora, Cane – para defender seus pontos de vista, no caso, sobre religião. Segundo ele, as religiões buscam disciplinar os fies através do medo, não através da revelação divina (a verdadeira natureza da criação). E isso não é suficiente para torná-las reais. O mundo criado por Cane, entretanto, tornou-se tão popular, com tantas pessoas acreditando nele, que finalmente tornara-se real.

Esta passagem nos lembra do episódio vivido por John Lennon em meados de 1965, quando a imprensa publicou uma declaração sua de que os Beatles eram maiores que Jesus Cristo. O compositor, mais tarde, alegou que fora citado fora de contexto, pois na verdade, se referia ao fato de que mais pessoas na terra ouviam suas músicas do que liam a Bíblia.

De qualquer forma, a declaração foi suficiente para que cristãos extremistas o acusassem de adorador do diabo, promovendo protestos em diversas cidades dos EUA, com queimas de discos e fotos dos Beatles em praça pública, cartazes ofensivos, passeatas, etc. Uma clara demonstração da manutenção da disciplina religiosa através do medo.

Uma frase de Cane torna evidente a referência ao acontecido com Lennon: “mais pessoas acreditam em meu trabalho do que na Bíblia”.

Trent ainda se recusa a acreditar nos acontecimentos à sua volta, tentando buscar uma explicação racional. Podemos ver o olhar de Cane, enquanto ele admira sua criação, fiel à fôrma em que fora moldado. O escritor, finalmente, explica o objetivo do livro: enlouquece as pessoas que o lêem, estas passam a acreditar na estória. E quando as pessoas não forem mais capazes de distinguir a realidade e a fantasia, os “antigos” poderão retornar à terra. A conversão de novos crentes dará poder para esse retorno.

Entendemos que o vago termo utilizado, “antigos” (“old ones”), é clara alusão a um dos elementos da obra de Lovecraft (“unspeakable evil”), nos levando a presumir que são criaturas demoníacas há muito banidas da terra.

O escritor revela a missão para a qual o detetive havia sido criado: levar o livro de Hobb’s End para o mundo real.

Na cena onde John Trent olha através do buraco, Styles começa a ler o livro em voz alta, descrevendo exatamente o que acontece. Carpenter se abstém de aventurar a câmera pelo mundo das trevas, emulando o poder de sugestão próprio da arte literária (e também economizando alguns milhares de dólares de seu orçamento, é claro).

O detetive retorna ao mundo real e tenta se livrar do livro, acreditando que destruindo o original, salvaria o mundo. De volta ao escritório do executivo da editora (vivido por Charlton Heston), este diz que Trent já havia lhe entregue o original há meses, que o livro já havia inclusive sido publicado, com a adaptação cinematográfica prestes a sair. Mais uma vez, Cane alterou a estória (intervenção divina: o autor é Deus para sua obra), garantindo a seqüência de seus planos.

Desolado, Trent vaga pelas ruas, onde multidões se enfileiram nas portas das livrarias, atrás do novo livro de Cane. Num acesso de loucura, ele mata a machadadas um dos leitores, e retornamos ao hospício do início do filme. A entrevista com o psiquiatra termina.

Durante a noite, algo acontece no do lado de fora do quarto do detetive no hospício. Ele ouve gritos e grunhidos, vê sombras de pessoas sendo atacadas por criaturas. Quando termina, a porta do quarto se abre, e ele vê o hospital deserto, e destruído.

Trent deixa o hospício com o som de um rádio ao fundo, onde uma transmissão de emergência reporta as ondas de histeria coletivas em diversas localidades – uma citação ao clássico de 1968, “A Noite dos Mortos Vivos”, de George Romero. Vagando pela cidade também destruída e abandonada, ele chega a um cinema onde está sendo exibido o filme do livro de Cane, “À Beira da Loucura”. As cenas que sucedem na tela repetem os acontecimentos do filme. Diante delas, ele gargalha insanamente, e o filme termina.

VI. Conclusão

“À Beira da Loucura” conclui a chamada “trilogia do apocalipse” de John Carpenter, iniciada com “O Enigma de Outro Mundo” (1982) e continuada em “O Príncipe das Trevas” (1987). As estórias desses três filmes não têm qualquer relação entre si, sendo o único ponto em comum o fato de terminarem com um prenúncio do fim da raça humana – o apocalipse.

Ao contrário da abordagem extremamente gráfica de “O Enigma de Outro Mundo”, em “À Beira da Loucura” o cineasta opta por não mostrar explicitamente as criaturas e cenas mais violentas no filme. Como previamente mencionado, trata-se do uso do poder de sugestão e da exploração do imaginário, com a indução de idéias, dando espaço para que o espectador forme suas próprias imagens em sua mente, sem se utilizar de cenas explícitas que não dariam margem a interpretações visuais. Essa opção, além de econômica em termos de produção – Carpenter se tornou expert em “enxugar” orçamentos – tem o objetivo de emular a experiência de se ler um livro. Ele mostra apenas um pouco a mais do necessário para fazer seu filme funcionar, e a grande parte fica a cargo da imaginação de quem assiste.

Dentro do esquema proposto no início desta análise, o fato de dar liberdade de imaginação ao espectador é uma negação do que ele afirma durante a maior parte do filme: o poder absoluto do autor. E com essa guerra de pontos de vista, John Carpenter conseguiu criar seu filme mais autoral, mesmo que no fundo os espectadores mereçam uma parcela de crédito na autoria desta interessante experiência cinematográfica, para aqueles que se dispõem a ingressar nela. Aos que não pretendem afastar-se da superfície, resta apenas um simples filme de horror, e a frase “Oh, não, não John Carpenter…”.

Rio de Janeiro, 15 de fevereiro de 2003.

Nota:

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