Análise Interpretativa: Veludo Azul (1986)

Posted on 28/02/2011 por

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Bem, não conseguimos escrever sobre todos os indicados ao Oscar de melhor filme antes da entrega do prêmio (mas, como havíamos dito no primeiro post do “Especial Oscar 2011”, essa nem era nossa proposta).

Sorte nossa que o Johnny conseguiu assistir e escrever a tempo sobre o grande ganhador da noite (O DISCURSO DO REI). De qualquer forma, a medida em que formos assistindo os filmes indicados, iremos escrevendo os textos e inserindo-os no “Especial”.

Passada a maratona do Oscar, voltamos à “vida normal” com mais uma das antigas “análises interpretativas” escritas em 2002 para o NSI Cine Análise.

Aviso: por se propor a fazer interpretações subjetivas do filme, o texto abaixo revela diversos acontecimentos, inclusive o final. Portanto, recomendo que assistam o filme antes de ler.


Análise do filme “Veludo Azul”

(Blue Velvet , EUA, 1986)

Dir.: David Lynch

Por Fábio S. Ribeiro

I. Introdução

Um dia ensolarado, jardins floridos, crianças indo para a escola: aparentemente, uma dia normal em um mundo perfeito. Mas a tranqüilidade aparentemente inviolável deste mundo está prestes a ser interrompida. Uma mangueira retorcida tem seu fluxo de água interrompido, enquanto um velho homem regando seu jardim sucumbe ao seu organismo desgastado.

Sob o belo jardim florido a câmera nos leva, mostrando um novo e feio mundo de criaturas monstruosas. Na verdade, o interior de um formigueiro.

As passagens acima descrevem a abertura de “Veludo Azul”, filme no qual o cineasta David Lynch – conhecido, entre outras coisas, por suas críticas ao “american way of life” em alguns de seus filmes – sugere metaforicamente que sempre há sujeira sob o carpete limpo. No caso, o carpete é justamente a sociedade norte-americana.

O filme é considerado por muitos a obra-prima de David Lynch. O cineasta vinha de uma frustrante adaptação do livro Duna, de Frank Herbert, onde, segundo ele, os produtores conseguiram desvirtuar bastante o resultado final. A exemplo do que aconteceu com outros diretores autorais como David Cronenberg, Stanley Kubrick e John Carpenter, “Blue Velvet” representou seu grito de liberdade artística. A partir de então, seus projetos passaram a ser pessoais. Tal escolha o levou a um período de baixo prestígio por parte de uma crítica mais preocupada em louvar sucessos comerciais. Entretanto, sua perseverança trouxe de volta o clamor do público e da crítica em 2001, com o grande sucesso de “Cidade dos Sonhos”.

II. Bem-vindo a Lumberton

A estória de Veludo Azul se passa em Lumberton, uma pequena cidade norte-americana cuja economia gira em torno da indústria madeireira. Não oferecendo maiores oportunidades de emprego, grande parte de sua população jovem deixa a cidade após completar o colegial. É o caso do nosso personagem principal, Jeffrey Beaumont (Kyle McLachlan), que retorna à cidade devido ao frágil estado de saúde em que seu pai – o homem que regava o jardim no início do filme – se encontra.

Vagando em terrenos desocupados de sua vizinhança, Jeffrey encontra uma orelha humana. Aqui temos o ponto de partida para toda a trama do filme. A tranqüilidade aparente mais uma vez está preste a ser confrontada. Ele leva a orelha à polícia, e a entrega ao detetive Williams (George Dickerson), seu vizinho.

III. O Salvador e a Colegial na Lincoln

Após uma visita à casa do detetive Williams, Jeffrey é interpelado por uma voz feminina perguntando sobre a orelha encontrada. Mais uma vez, Lynch confunde o espectador a partir de inversões do que parece ser a realidade. A imagem que sai da escuridão se revela uma bela mulher. Trata-se de Sandy (Laura Dern), a filha do detetive, que irá se tornar sua auxiliar no decorrer o filme, e algo mais, próximo do final.

Antes de sair de casa, Jeffrey é questionado por sua tia se ele iria até a “Lincoln”, de forma a alertá-lo sobre o local. Durante a conversa com Sandy, esta conta que ouviu diversas vezes o seu pai mencionar o nome de uma cantora que mora em um apartamento em um prédio localizado exatamente na rua (ou avenida) Lincoln.

Motivado pela excitação em desvendar um mistério, Jeffrey decide investigar o apartamento da cantora – que se chama Dorothy Valens (Isabella Rossellini) – e pede ajuda a Sandy. Disfarçado de detetizador, ele vai até o endereço. Um homem de terno amarelo aparece para checar quem está lá dentro e, aproveitando um momento de distração, Jeffrey furta um molho de chaves da residência.

Em uma cena em particular, podemos perceber os sentimentos de Jeffrey e Sandy se transformando em algo além de amizade: quando ela decide desmarcar o encontro de sexta à noite com seu namorado para ajudar Jeffrey na investigação.

IV – A Dama Triste

Na boate onde canta, Dorothy é apresentada como “The Blue Lady”. A palavra “blue” em inglês também possui outra conotação, significando “triste”. Somada à interpretação melancólica da música “Blue Velvet”, temos aqui alguns sinais indicativos do estado emocional da cantora.

Jeffrey invade o apartamento de Dorothy, e inicia a busca por pistas para solucionar o mistério da orelha. Surpreendido pela chegada da moradora do apartamento, ele se esconde no armário e observa a cantora se despir.

Uma ligação recebida pela cantora apresenta novos elementos à trama. Algum conhecido de Dorothy aparentemente foi seqüestrado. Mas tarde, saberemos que os seqüestrados são seu marido e seu filho pequeno.

A cantora descobre Jeffrey escondido em seu armário, e empunhando uma faca de cozinha, o faz tirar a roupa, numa das cenas de dominação mais tensas do cinema. Mas quando estão prestes a fazer sexo, alguém bate à porta. Assustada, ela ordena que o rapaz volte para dentro do armário e fique quieto.

V – O Vilão Asmático

Entra no apartamento Frank (Dennis Hopper), o homem que havia ligado há pouco. Aqui, Lynch coloca o herói Jeffrey junto aos espectadores, para que presenciem impotentes, toda sorte de violências que o vilão, um homem visivelmente perturbado, irá fazer à cantora. Ele a humilha, a surra e a estupra, enquanto a mulher apenas obedece aos seus comandos proferidos agressivamente.

Ao terminar, Frank diz a Dorothy: “mantenha-se viva, baby, faça isso por Van Gogh”. Mais uma pista que ajudará Jeffrey a desvendar o mistério da orelha (Van Gogh, o pintor que cortou a própria orelha).

Quando Frank se vai, o rapaz sai do armário e vai reconfortar Dorothy. Esta, desconcertada, o chama de “Don”, implorando para ser abraçada e posteriormente espancada.

Antes de Jeffrey ir embora do apartamento, ele vê a certidão de casamento da cantora, e descobre que Don é o nome de seu marido.

VI – O Estranho Mundo de David Lynch

Na noite seguinte, Jeffrey conta a Sandy o que descobriu no apartamento da cantora. Aqui temos o mundo superficial e perfeito, alvo das críticas do diretor, sendo confrontado pela dura realidade mascarada, que pode estar ao nosso lado sem que percebamos.

Indignado, Jeffrey questiona o porque de existiram pessoas como Frank. Neste momento, Sandy começa a descrever um sonho que teve. Tal sonho pode ser interpretado como uma metáfora para o desfecho do filme: “há problemas até os passarinhos chegarem”.

Jeffrey passa a visitar Dorothy, mantendo relações sexuais com ela. Em paralelo, passa também a investigar as ações de Frank. A partir daí, a trama se desenrola, sendo Jeffrey descoberto e espancado por Frank e sua gangue, seu relacionamento com Sandy se concretizando, a descoberta de um submundo do crime em Lumberton, com envolvimento de um policial com traficantes, assassinatos, e muitas outras coisas.

David Lynch revela o lado mais podre de Lumberton, a típica cidade norte-americana que, nas primeiras cenas do filme, aparentava ser o lugar perfeito para viver.

Diversas passagens do filme são retratadas em um clima onírico, carregadas de simbolismos, fórmula que ainda seria bastante desenvolvida nos filmes seguintes do diretor, como “Twin Peaks – Os últimos dias de Laura Palmer”, cuja temática principal é a mesma de Veludo Azul.

No final do filme, nem todos os mistérios são revelados. Jeffrey mata Frank, eliminando a escuridão. O caminho é aberto para os pássaros, e a vida em Lumberton volta a ser bela.

As cenas finais do filme mostram Dorothy e seu filho em um jardim. Fica a questão: seriam essas últimas imagens um delírio da mente de Dorothy levada a insanidade, ou teria ela reencontrado seu filho e vivido “feliz para sempre”?  Lynch deixa em aberto, pois a imagem anterior da cantora no filme foi dela sendo levada em uma ambulância, e seu marido, vimos que foi morto por Frank. Não se fez menção ao que aconteceu ao filho.

VII – Conclusão

Em “Veludo Azul”, uma espécie de film noir com ares modernos mas que mantém alguns traços vintage – vide a trilha composta por canções antigas e instrumentações da trilha original de Angelo Badalamenti – através de acontecimentos que soam irreais, Lynch sugestiona toda uma amarga realidade está escondida além da fachada da sociedade norte-americana, aquela que pretende servir de modelo para o mundo civilizado.

Rio de Janeiro, 15 de dezembro de 2002

Nota:

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