Análise Interpretativa: Gêmeos – Mórbida Semelhança (1988)

Posted on 02/02/2011 por

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Enquanto o Eduardo se aventura nas descobertas da primeira paternidade e o João se desventura com um texto que nunca termina, posto mais uma das análises que escrevi para o NSI em 2002.

Aproveito para saudar nosso colaborador Leandro por seu divertido texto sobre “As Aventuras de Sérgio Mallandro”.

Aviso: por se propor a fazer interpretações subjetivas do filme, o texto abaixo revela diversos acontecimentos, inclusive o final. Portanto, recomendo que assistam o filme antes de ler.

Considerado por muitos a obra-prima de David Cronenberg, “Gêmeos – Mórbida Semelhança” é um filme que se tem como objetivo retratar o universo de diferenças de dois gêmeos biologicamente idênticos.

A fotografia do filme tem um aspecto sombrio, com o uso, na maior parte da película, de cores neutras em tons escuros (semelhante à fotografia de “Crash – Estranhos Prazeres”, outro filme de tamática mórbida do diretor), à exceção do imaginário ligado à medicina, todo em vermelho. A trilha sonora, mais ambiental, serve como um amortecedor, dando suporte às imagens “pesadas”.

Os personagens centrais da trama são os irmãos Elliot e Beverly Mantle (Jeremy Irons, em um papel que lhe rendeu vários prêmios de melhor ator e pavimentou o caminho para seu Oscar em 1991), ambos ginecologistas atuando na área de fertilização feminina. Elliot, o gêmeo “dominante”, conduz as relações sociais de Beverly, o mais introspectivo. Elly conquista mulheres (pacientes ou não), e repassa-as ao irmão tímido. Tudo vai bem até que Bev se apaixona por uma de suas pacientes, o que levará desequilíbrio da relação entre os irmãos, levando-os a uma espiral de auto-destruição que termina em morte.

O filme inicia mostrando a passagem da infância dos irmãos onde eles descobrem a existência do sexo, ainda que como veículo da reprodução humana. Este aspecto funcional será o fio condutor de suas vidas e por conseqüência, do filme. Os gêmeos encaram o sexo sobre o prisma científico desde o primeiro contato, fato evidenciado na cena em que ambos propõe a uma menina da idade deles, uma relação sexual, nível de experiência.

Naturalmente, os dois seguem o destino esperado, ingressando na faculdade de medicina, onde irão se especializar na área ginecológica. Nestas cenas, nos é mostrado o  brilhantismo profissional dos irmãos, que desenvolvem novas técnicas e aparelhos cirúrgicos antes mesmo de se formarem. Temos também a demonstração da subordinação de Bev a Elly no campo social, com este assumindo a posição de porta-voz da dupla.

Em um salto à época presente do filme (1988), temos os dois irmãos já estabelecidos como médicos bem sucedidos, donos de uma clínica ginecológica especializada em fertilização feminina. Bev está examinando Claire Niveau (Geneviève Bujold), uma famosa atriz de televisão, quando descobre uma anomalia que a impede de ter filhos: seu útero é trifurcado – uma metáfora ao pseudo-triângulo amoroso que irá se formar mais a frente entre ela e os gêmeos. Elly assume o caso se passando por Bev e, utilizando-se de seu poder de sedução, consegue levar Claire para a cama, na primeira noite.

Na cena em que Elly chega em casa após o primeiro encontro com Claire, temos o estabelecimento de mais importantes distinções nas personalidades dos gêmeos. Elly, atraído pela aventura, rompeu com um compromisso anterior (o encontro com uma Condessa) para desfrutar uma nova experiência (Claire). Após usá-la, ele a passará para Bev, que se mostra avesso a essa idéia, tentando utilizar outras responsabilidades (pacientes na clínica) como escudo contra os comandos do irmão. Mas, incapaz de resistir, acata os apelos fraternos (“Seja apenas eu”, diz Elly).

Vemos então Bev no apartamento de Claire, dando a notícia de que ela não poderá ter filhos. Neste momento, podemos perceber que a insistência de Elly para que Bev fosse ao encontro de Claire não foi apenas uma tentativa de ajudar o irmão tímido a conseguir uma relação, e sim a necessidade de Bev o substituir nesse momento (como Elly mais adiante diz ao tentar infrutiferamente consolar uma paciente na ausência de Bev, “não sou tão bom nos casos sérios”).

Claire, diante da má notícia, desabafa, revelando que sempre teve uma vida promíscua devido às tentativas de realizar o sonho de ser mãe. Ela se oferece a Bev, iniciando-o em um mundo sexual por ele desconhecido – para Bev, sexo é reprodução. Podemos ver a falta de tato dele diante do fetiche sugerido por Claire (“preciso ser punida”).

Com o retorno de Bev no dia seguinte, mais detalhes das personalidades distintas dos irmãos são revelados. Nos é mostrado um Elly manipulador e inescrupuloso (“eu não sou tão bom nos casos sérios”), e um Bev mais sensível e humano (“Não sou tão bom nos casos frívolos”). Um fato em comum é a ignorância por parte de ambos quanto à qualquer ética médica referente a envolvimento com suas pacientes.

Claire prossegue com a introdução de Bev em um mundo passional e emotivo. O envolvimento afetivo entre os dois se estreita. Sem que perceba, o gêmeo submisso toma a frente do dominador, ao se apaixonar por Claire e excluir Elly do compartilhamento da nova experiência.

Claire – através de Elly – introduz Bev no mundo das drogas. A mulher começa a substituir o gêmeo dominante no papel de provedor de novas experiências ao dominado.

As diferenças de personalidade entre os irmãos começam a se tornar perceptíveis a Claire, que até o momento desconhecia a existência de dois irmãos Mantle. A vemos questionando o nome de Beverly como sendo um nome feminino, e isso o irrita. Tal situação nos remete à seguinte possibilidade, implícita no conteúdo do filme: Bev, esperado por sua mãe como uma filha (que se chamaria Beverly), a decepciona ao nascer menino. Tal rejeição o leva a se colocar em uma condição de inferioridade em relação ao irmão, que passa a absorver a parcela ativa de sua personalidade. A irritação aparentemente desmotivada de Bev diante do comentário de Claire reforça essa nossa interpretação da trama. Aliada a uma fala de Bev (“o único papel que fiz foi o do meu irmão”), também reforça as suspeitas dela em relação a duplicidade de personalidade.

Suas suspeitas se materializam quando uma amiga lhe faz a revelação de que existem dois irmãos Mantle, gêmeos idênticos e ambos ginecologistas. Ao descobrir como foi usada pelos irmãos, ela rompe a relação. Bev, que está apaixonado, entra em colapso, buscando refúgio em seu crescente vício em drogas. Em plena queda, ele se apresenta embriagado em eventos sociais, e até mesmo em cirurgias.

Mas Claire retorna, o que diminui a aceleração do declínio de Bev. Eles passam a ter um relacionamento real, sem a participação de Elly, o que dá início ao processo de separação dos gêmeos. Temos Claire como agente dessa separação, fato evidente na cena do pesadelo, onde os irmãos, tais quais os gêmeos siameses conectados por uma camada de pele, são separados pela mulher.

Elly sente a perda de sua outra metade, e tenta de alguma forma supri-la. Vemos isso na cena onde ele pede a duas prostitutas gêmeas que uma o chame de Elly e a outra de Bev.

Enquanto isso, a dependência química de Beverly se acentua. Ele passa a funcionar à base de comprimidos, realizando cirurgias sem as menores condições físicas e mentais.

Quando Claire viaja a trabalho, o quadro de Bev se agrava ainda mais. Completamente desequilibrado, ele passa a acreditar Claire o está traindo. A temática “cronenberguiana” se mostra mais forte quando temos Bev obcecado em “reparar” todas as aberrações das mulheres. Em uma fantástica variante do pensamento masculino desiludido de que “nenhuma mulher presta”, ele passa a ver todas as mulheres como semelhantes àquela que ele imagina tê-lo traído.

Chegamos ao trecho mais memorável do filme, com a criação dos “instrumentos ginecológicos para operar mulheres mutantes”. Aqui, Cronenberg brinca com o conceito de arte, fazendo uma metafórica crítica ao controle dos produtores sobre os diretores de cinema. Vemos o artista-plástico como mero artesão contratado, enquanto o idealizador (e financiador) da obra dita as regras. Mais adiante ele concluirá essa crítica, quando Bev retorna à galeria e vê seus instrumentos expostos sob a assinatura do artista. Irritado, ele os “confisca”, alegando serem propriedade sua. Cronenberg, enquanto cineasta personalíssimo e senhor de sua obra, tem propriedade para tal crítica. É um fato interessante, uma vez que seu filme anterior, “A Mosca”, é um do menos pessoais em sua obra, em virtude do controle por parte do estúdio.

Desistindo de uma recuperação clínica de seu irmão, Elly volta a absorver a psique de Bev, e passa a pressupor que a única forma de retomar o equilíbrio com seu irmão é se tornar como ele, dependente químico.

Claire retorna de sua viagem, o que gera em Bev uma mudança de orientação. Munido de seus instrumentos, que agora ele chama de “instrumentos para separar gêmeos siameses”, ele vai ao encontro da amante. Agora, o foco de sua mente está em ganhar a independência total de seu irmão dominador, o que reforça a presença de Claire como agente separador dos gêmeos.

Em casa, Bev encontra Elly completamente drogado. Ambos estão em sintonia, mas a cisão é inevitável. Com a mente perturbada, Bev realiza a “operação de separação”, que resulta na morte de Elly.

No dia seguinte, visivelmente perturbado, ele acorda e percebe o corpo inerte do irmão, mas parece ignorá-lo. Se arruma para sair, mas ao ouvir a voz de Claire em um telefone público, retorna à sala onde jaz o cadáver de Elly. Unindo-se a ele, repete a sina dos siameses Eng e Chang, fechando o filme.

A história dos famosos siameses aparece no filme em uma cena onde, Bev, debilitado, questiona Elly sobre o motivo de seu zelo com o irmão doente. Elly justifica trazendo à lembrança a história dos famosos gêmeos siameses do século XIX, Eng e Chang. Ambos adaptaram-se de maneira tão interdependente, que um não poderia viver sem o outro. Quando o mais fraco dos dois morreu, o outro morreu de choque ao acordar na manhã seguinte e ver o irmão morto ao seu lado.  Nesse momento, percebemos que a saga dos Mantle nada mais é do que uma paráfrase à história de Eng e Chang, na visão de Cronenberg. Algumas inversões são feitas: Elly, inicialmente o gêmeo mais forte, se torna debilitado, e morre primeiro. Bev, inicialmente o fraco e mais dependente, de certa forma supera o irmão, vindo a morrer por último, pelo impossibilidade de viver sem sua outra metade.

Outras questões também podem ser levantadas no final do filme. Quem realemte era o gêmeo dominante? Após a “operação de separação”, Bev, que imaginávamos ser o gêmeo acessório, sobrevive. Então, seria Elly o verdadeiro acessório?

Tais questões e muitas outras são deixadas em aberto, para que o espectador reflita e tire suas próprias conclusões. Com seu estilo único, o cineasta nos proporciona seu regular “freak show”, que no fundo, nada mais é do que um veículo através do qual se sente confortável para expor seus questionamentos filosóficos. “Gêmeos – Mórbida Semelhança” nos leva, junto com os irmãos Mantle, ao fundo do poço, mas nos permite retornar, para na qualidade de espectadores ativos, digerirmos as propostas, advindas um dos cineastas mais geniais do fim do século passado.

Nota:

 

Considerado por muitos a obra-prima de David Cronenberg, “Gêmeos – Mórbida Semelhança” é um filme que se tem como objetivo retratar o universo de diferenças de dois gêmeos biologicamente idênticos.

 

A fotografia do filme tem um aspecto sombrio, com o uso, na maior parte da película, de cores neutras em tons escuros (semelhante à fotografia de “Crash – Estranhos Prazeres”). A trilha sonora, mais ambiental, serve como um amortecedor, dando suporte às imagens “pesadas”.

 

 

Os personagens centrais da trama são os irmãos Elliot e Beverly Mantle, ambos ginecologistas atuando na área de fertilização feminina. Elliot, o gêmeo “dominante”, conduz as relações sociais de Beverly, o mais introspectivo. Elly conquista mulheres (pacientes ou não), e repassa-as ao irmão tímido. Tudo vai bem até que Bev se apaixona por uma de suas pacientes, o que levará desequilíbrio da relação entre os irmãos, levando-os a uma espiral de auto-destruição que termina em morte.

 

O filme inicia mostrando a passagem da infância dos irmãos onde eles descobrem a existência do sexo, ainda que como veículo da reprodução humana. Este aspecto funcional será o fio condutor de suas vidas e por conseqüência, do filme. Os gêmeos encaram o sexo sobre o prisma científico desde o primeiro contato, fato evidenciado na cena em que ambos propõe a uma menina da idade deles, uma relação sexual, nível de experiência.

 

Naturalmente, os dois seguem o destino esperado, ingressando na faculdade de medicina, onde irão se especializar na área ginecológica. Nestas cenas, nos é mostrado o  brilhantismo profissional dos irmãos, que desenvolvem novas técnicas e aparelhos cirúrgicos antes mesmo de se formarem. Temos também a demonstração da subordinação de Bev a Elly no campo social, com este assumindo a posição de porta-voz da dupla.

 

Em um salto à época presente do filme (1988), temos os dois irmãos já estabelecidos como médicos bem sucedidos, donos de uma clínica ginecológica especializada em fertilização feminina. Bev está examinando Claire Niveau, uma famosa atriz de televisão, quando descobre uma anomalia que a impede de ter filhos: seu útero é trifurcado – uma metáfora ao pseudo-triângulo amoroso que irá se formar mais a frente entre ela e os gêmeos. Elly assume o caso se passando por Bev e, utilizando-se de seu poder de sedução, consegue levar Claire para a cama, na primeira noite.

 

Na cena em que Elly chega em casa após o primeiro encontro com Claire, temos o estabelecimento de mais importantes distinções nas personalidades dos gêmeos. Elly, atraído pela aventura, rompeu com um compromisso anterior (o encontro com uma Condessa) para desfrutar uma nova experiência (Claire). Após usá-la, ele a passará para Bev, que se mostra avesso a essa idéia, tentando utilizar outras responsabilidades (pacientes na clínica) como escudo contra os comandos do irmão. Mas, incapaz de resistir, acata os apelos do irmão (“Seja apenas eu”, diz Elly).

 

Vemos então Bev no apartamento de Claire, dando a notícia de que ela não poderá ter filhos. Neste momento, podemos perceber que a insistência de Elly para que Bev fosse ao encontro de Claire não foi apenas uma tentativa de ajudar o irmão tímido a conseguir uma relação, e sim a necessidade de Bev o substituir nesse momento (como Elly mais adiante diz ao tentar infrutiferamente consolar uma paciente na ausência de Bev, “não sou tão bom nos casos sérios”).

 

Claire, diante da má notícia, desabafa, revelando que sempre teve uma vida promíscua devido às tentativas de realizar o sonho de ser mãe. Ela se oferece a Bev, iniciando-o em um mundo sexual por ele desconhecido – para Bev, sexo é reprodução. Podemos ver a falta de tato dele diante do fetiche sugerido por Claire (“preciso ser punida”).

 

Com o retorno de Bev no dia seguinte, mais detalhas das personalidades distintas dos irmãos são revelados. Nos é mostrando um Elly manipulador e inescrupuloso (“eu não sou tão bom nos casos sérios”), e um Bev mais sensível e humano (“Não sou tão bom nos casos frívolos”). Um fato em comum é a ignorância por parte de ambos quanto à qualquer ética médica referente a envolvimento com suas pacientes.

 

Claire prossegue com a introdução de Bev em um mundo passional e emotivo. O envolvimento afetivo entre os dois se estreita. Sem que perceba, o gêmeo submisso toma a frente do dominador, ao se apaixonar por Claire e excluir Elly do compartilhamento da nova experiência.

 

Claire – através de Elly – introduz Bev no mundo das drogas. A mulher começa a substituir o gêmeo dominante no papel de provedor de novas experiências ao dominado.

 

As diferenças de personalidade entre os irmãos começam a se tornar perceptíveis a Claire, que até o momento desconhecia a existência de dois irmãos Mantle. A vemos questionando o nome de Beverly como sendo um nome feminino, e isso o irrita. Tal situação nos remete à seguinte possibilidade, implícita no conteúdo do filme: Bev, esperado por sua mãe como uma filha (que se chamaria Beverly), a decepciona ao nascer menino. Tal rejeição o leva a se colocar em uma condição de inferioridade em relação ao irmão, que passa a absorver a parcela ativa de sua personalidade. A irritação aparentemente desmotivada de Bev diante do comentário de Claire reforça essa nossa interpretação da trama. Aliada a uma fala de Bev (“o único papel que fiz foi o do meu irmão”), também reforça as suspeitas dela em relação a duplicidade de personalidade.

 

Suas suspeitas se materializam quando uma amiga lhe faz a revelação de que existem dois irmãos Mantle, gêmeos idênticos e ambos ginecologistas. Ao descobrir como foi usada pelos irmãos, ela rompe a relação. Bev, que está apaixonado, entra em colapso, buscando refúgio em seu crescente vício em drogas. Em plena queda, ele se apresenta embriagado em eventos sociais, e até mesmo em cirurgias.

 

Mas Claire retorna, o que diminui a aceleração do declínio de Bev. Eles passam a ter um relacionamento real, sem a participação de Elly, o que dá início ao processo de separação dos gêmeos. Temos Claire como agente dessa separação, fato evidente na cena do pesadelo, onde os irmãos, tais quais os gêmeos siameses conectados por uma camada de pele, são separados pela mulher.

 

Elly sente a perda de sua outra metade, e tenta de alguma forma supri-la. Vemos isso na cena onde ele pede a duas prostitutas gêmeas que uma o chame de Elly e a outra de Bev.

 

Enquanto isso, a dependência química de Beverly se acentua. Ele passa a funcionar à base de comprimidos, realizando cirurgias sem as menores condições físicas e mentais.

 

Quando Claire viaja a trabalho, o quadro de Bev agrava ainda mais. Completamente desequilibrado, ele passa a acreditar Claire o está traindo. A temática “cronenberguiana” se mostra mais forte quando temos Bev obcecado em “reparar” todas as aberrações das mulheres. Em uma fantástica variante do pensamento masculino desiludido de que “nenhuma mulher presta”, ele passa a ver todas as mulheres como semelhantes àquela que ele imagina tê-lo traído.

 

Chegamos ao trecho mais memorável do filme, com a criação dos “instrumentos ginecológicos para operar mulheres mutantes”. Aqui, Cronenberg brinca com o conceito de arte, fazendo uma metafórica crítica ao controle dos produtores sobre os diretores de cinema. Vemos o artista-plástico como mero artesão contratado, enquanto o idealizador (e financiador) da obra dita as regras. Mais adiante ele concluirá essa crítica, quando Bev retorna à galeria e vê seus instrumentos expostos sob a assinatura do artista. Irritado, ele os “confisca”, alegando serem propriedade sua. Cronenberg, enquanto cineasta personalíssimo e senhor de sua obra, tem propriedade para tal crítica. É um fato interessante, uma vez que seu filme anterior, “A Mosca”, é um do menos pessoais em sua obra, em virtude do controle por parte do estúdio.

 

Desistindo de uma recuperação clínica de seu irmão, Elly volta a absorver a psique de Bev, e passa a pressupor que a única forma de retomar o equilíbrio com seu irmão é se tornar como ele, dependente químico.

 

Claire retorna de sua viagem, o que gera em Bev uma mudança de orientação. Munido de seus instrumentos, que agora ele chama de “instrumentos para separar gêmeos siameses”, ele vai ao encontro da amante. Agora, o foco de sua mente está em ganhar a independência total de seu irmão dominador, o que reforça a presença de Claire como agente separador dos gêmeos.

 

Em casa, Bev encontra Elly completamente drogado. Ambos estão em sintonia, mas a cisão é inevitável. Com a mente perturbada, Bev realiza a “operação de separação”, que resulta na morte de Elly.

 

No dia seguinte, visivelmente perturbado, ele acorda e percebe o corpo inerte do irmão, mas parece ignorá-lo. Se arruma para sair, mas ao ouvir a voz de Claire em um telefone público, retorna à sala onde jaz o cadáver de Elly. Unindo-se a ele, repete a sina dos siameses Eng e Chang, fechando o filme.

 

A história dos famosos siameses aparece no filme em uma cena onde, Bev, debilitado, questiona Elly sobre o motivo de seu zelo com o irmão doente. Elly justifica trazendo à lembrança a história dos famosos gêmeos siameses do século XIX, Eng e Chang. Ambos adaptaram-se de maneira tão interdependente, que um não poderia viver sem o outro. Quando o mais fraco dos dois morreu, o outro morreu de choque ao acordar na manhã seguinte e ver o irmão morto ao seu lado.  Nesse momento, percebemos que a saga dos Mantle nada mais é do que uma paráfrase à história de Eng e Chang, na visão de Cronenberg. Algumas inversões são feitas: Elly, inicialmente o gêmeo mais forte, se torna debilitado, e morre primeiro. Bev, inicialmente o fraco e mais dependente, de certa forma supera o irmão, vindo a morrer por último, pelo impossibilidade de viver sem sua outra metade.

 

Outras questões também podem ser levantadas no final do filme. Quem realemte era o gêmeo dominante? Após a “operação de separação”, Bev, que imaginávamos ser o gêmeo acessório, sobrevive. Então, seria Elly o verdadeiro acessório?

 

Tais questões e muitas outras são deixadas em aberto, para que o espectador reflita e tire suas próprias conclusões. Com seu estilo único, o diretor nos proporciona seu regular “freak show”, que no fundo, nada mais é do que um veículo com o qual se sente confortável para expor seus questionamentos filosóficos. “Gêmeos – Mórbida Semelhança” nos leva, junto com os irmãos Mantle, ao fundo do poço, mas nos permite retornar, para na qualidade de espectadores ativos, digerirmos as propostas, advindas um dos cineastas mais geniais da atualidade.

Posted in: Drama, Suspense