Análise Interpretativa: Réquiem para um Sonho (2000)

Posted on 22/01/2011 por

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Mais um texto dos antigos: desta vez, a versão atualizada de uma análise interpretativa do filme “Requiém para um Sonho”, escrita em 2002 para o NSI Cine Análise.

Por se propor a fazer interpretações subjetivas do filme, o texto revela diversos acontecimentos, inclusive o final. Portanto, recomendo que assistam o filme antes de ler além da introdução.

Análise do filme “Réquiem para um Sonho”

(Requiem for a Dream , EUA, 2000)

Dir.: Darren Aronofsky

Por Fábio S. Ribeiro

I. Introdução: quem ainda tem medo de monstros?

O diretor nova-iorquino Darren Aronofsky nos trouxe em seu segundo longa metragem um drama pesado que foi considerado por muitos, inclusive pelo próprio cineasta, uma peça de horror moderno.

À época, o cineasta despontava como um provável herdeiro de diretores transgressores da década de setenta ao ressuscitar o elemento ‘chocante’ para as platéias adultas do cinema, uma vez que, com a banalização do gênero “terror” nos anos 80 e 90, as audiências tornaram-se mais resistentes – motivo principal do declínio do gênero nesse período.

Com o gênero reduzido pelos grandes estúdios a filmes destinados ao público adolescente na década de 90, agora o público adulto não mais se interessava pelo horror gráfico de obras como “Last House on the Left” (1972) e “Cannibal Holocausto” (1980). Estes filmes tiveram em comum o fato de buscar aterrorizar os espectadores através de elementos da realidade humana – o horror real. Em ambos os filmes citados, não existem monstros ou criaturas sobrenaturais, mas seres humanos que cometem atrocidades.

Em “Last House on the Left”, Wes Craven (diretor também responsável por filmes como “Quadrilha de Sádicos”, “A Hora do Pesadelo” e a série “Pânico”) em seu longa de estréia, chocou o público norte-americano com uma estória sobre violência urbana que poderia acontecer com qualquer família.

Já “Cannibal Holocausto”, do italiano Ruggero Deodato, apresentou uma outra forma de horror real, que embora distante da realidade urbana, chocava as audiências pela capacidade de expor os limites do ser humano. O próprio trailer do filme já dava a dica:

“Don’t look away! Look at it! These are men, men like you!”

Além disso, o filme se apoiou em um marketing enganoso que afirmava que as imagens dos canibais se alimentando dos cinegrafistas eram reais, o que garantiu seu “sucesso comercial” mundo afora.

Em 2000, Aronofsky, talvez involuntariamente, retomou essa tendência do cinema de horror setentista, adaptando-a à realidade do novo milênio. Assim, Réquiem para um Sonho nasceu com toda a força, trazendo à tona novamente a proposta de aterrorizar o público adulto de uma forma muito mais real e eficaz. Afinal, o que pode ser mais apavorante do que ser forçado a presenciar aquela realidade que está o tempo todo ao nosso lado, mas fingimos não ver? De certa forma, o cineasta transformou toda a sociedade em “Alex Delarge”, personagem protagonista do livro “Laranja Mecânica” de Anthony Burguess (no livro, levado ao cinema por Stanley Kubrick, o criminoso Alex é obrigado a presenciar a violência na tela como parte de um novo método de cura).

Já no início de Réquiem para um Sonho, vemos a conturbada relação entre Sarah Goldfarb e seu filho Harry. Este vai à casa da mãe pegar o único televisor dela para vender e comprar drogas. Uma cena cruel para a maioria, mas que faz parte do cotidiano de milhares de famílias ao redor do mundo.

Sarah, uma senhora à porta da terceira idade, tenta enganar-se sobre a realidade em que vive, e profetiza: “in the end, it’s all right”.

II. Verão (Summer)

No primeiro ato do filme, que se passa durante o verão nova-iorquino, iremos conhecer as personalidades dos quatro elementos centrais do filme. Vemos Harry e seu amigo Tyrone curtindo juntos as drogas compradas com o produto da venda da TV de sua mãe, que posteriormente irá à loja reaver a televisão.

Depois, a vemos senhora solitária, entregue aos dois únicos prazeres – e vícios – que lhe restam no mundo: televisão e comida. Neste momento, percebemos que o alvo do diretor é mais abrangente do que inicialmente esperado, uma vez que também fazem parte de sua crítica o vício em coisas prejudicais à saúde (física e mental) que não são entorpecentes ilícitos. Temos também Harry e sua namorada Marion vivendo as emoções de pequenas aventuras contraventoras – outro vício, prejudicial à sociedade?

É durante o verão que presenciaremos o surgimento dos sonhos: cada um dos quatro personagens irá traçar as ilusões de um futuro ideal, e lutará para atingir esse objetivo. Entretanto, o principal obstáculo no caminho em direção à realização desses sonhos revela-se o próprio caminho seguido: drogas.

Sarah, após receber uma ligação onde é convidada a participar de um show televisivo, passa a buscar a recuperação de sua aparência antiga, com o objetivo de parecer jovem e bela na televisão. Ela tinge os cabelos e começa a fazer dieta para emagrecer e caber no vestido que usou na formatura do filho. Encontrando dificuldades em perder peso por conta própria, ela irá recorrer a um “médico”, que lhe receita pílulas – anfetaminas – para controlar o apetite.

Já Harry, Tyrone e Marion arquitetam um esquema de revenda de drogas cujos lucros possibilitariam a realização de seus próprios sonhos. Enquanto Harry e Marion pretendem abrir um grife de roupas, Tyrone almeja apenas ser “alguém” na vida, para honrar a memória de sua mãe.

Tanto o “negócio” dos jovens amigos quanto a “dieta” da Sra. Goldfarb, a princípio, vão bem: o dinheiro começa a entrar na caixa, e o corpo de Sarah, no vestido vermelho. Mas no final deste ato, começam a aparecer os primeiros indícios de que as coisas não terminarão bem: as anfetaminas começam a alterar a personalidade de Sarah.

III. Outono (Fall)

O trocadilho do uso do sinônimo da palavra ‘outono’ em inglês (‘autumn=fall’, a estação em que as folhas caem) dá a dica do que irá se passar neste ato do filme.

O final do ato anterior mostra Tyrone começando a crescer no submundo do tráfico. Entretanto, essa breve ascensão é interrompida quando é deflagrada uma guerra entre os traficantes negros e a máfia italiana de Nova Iorque.

A queda dos quatro personagens começa com a prisão de Ty. Harry gasta quase todo o dinheiro que haviam juntado para pagar a fiança do amigo. Mas agora, a retomada dos negócios será difícil, uma vez que a guerra entre os italianos e os negros levou ao desaparecimento das drogas nas ruas de Nova Iorque.

Sarah, ingerindo cada vez mais pílulas, passa a sofrer alucinações progressivamente mais assombrosas. Agora, personagens do show da televisão e objetos inanimados ganham vida à sua volta, trazendo horror e prenunciando sua perda de sanidade mental.

Já Marion começa a sentir os efeitos da ausência de drogas em seu organismo viciado. O relacionamento do casal torna-se frágil quando as personalidades começam a se alterar devido às crises de abstinência. Enquanto Harry e Marion se atacam, Sarah já vive uma realidade distorcida.

Surgem boatos de que um carregamento de drogas vindo da Flórida está para chegar à Nova Iorque. Mas, seguindo a lei da oferta e da procura, as drogas serão vendidas pelo dobro do preço. O desespero toma conta do casal e Harry, antes ciumento, encoraja Marion a se prostituir a seu terapeuta para conseguir o dinheiro necessário à compra de um novo estoque de drogas. Vemos aqui uma forte crítica direcionada à falta de ética de alguns profissionais da área de saúde. Da mesma forma, Aronofsky apontou sua mira para o médico de Sarah Goldfarb, que receitou as anfetaminas sem sequer olhar para a paciente.

IV. Inverno (Winter)

O ato final do filme nos mostra a destruição total dos sonhos dos quatro personagens. A frieza da estação mais sem vida do ano se equipara perfeitamente à narrativa dos quatro trágicos desfechos.

Sarah surta de vez e vai à emissora de TV questionar a ausência de contato da produção do programa. Absolutamente perturbada, ela é encaminhada a uma instituição psiquiátrica.

Harry e Ty viajam de carro para a Flórida em busca de drogas. No percurso, a ferida infeccionada no braço de Harry, causada por sucessivos picos, piora cada vez mais. Inconseqüente, ele continua injetando heroína através da enorme ferida, a despeito dos alertas de Ty.

Em Nova Iorque, Marion não resiste às crises de abstinência e vende seu corpo ao traficante Big Tim, em troca de drogas.

Os minutos finais do filme compõem uma macabra e ao mesmo tempo bela sinfonia de horror, cuja intensidade se acentua a cada compasso. À medida que o ritmo se acelera, somos bombardeados com uma seqüência de acontecimentos que se desenrolam em uma espiral descendente, em imagens impressionantes.

O clímax dessa sinfonia se dá no momento em que se mostram os quatro trágicos destinos: Sarah, agora louca, encontra-se internada em um hospício; Harry tem seu braço amputado em um hospital; Marion se vende para sustentar seu vício em um show pornográfico realizado por Big Tim; e Tyrone, preso em uma penitenciária a centenas de quilômetros de casa, além de sofrer maus tratos por parte dos guardas, amarga sozinho os efeitos da crise de abstinência.

Os sonhos, destruídos na vida real, se concretizam na mente da agora insana Sra. Sarah Goldfarb, confirmando sua profecia do início do filme: “In the end, it’s all right”.

V. Conclusão

“Réquiem para um sonho” tornou-se um dos filmes mais polêmicos e controversos da época. Era surpreendente a quantidade de críticas negativas em relação ao filme encontradas na mídia. As acusações eram muitas, como por exemplo, de utilizar-se excessivamente de uma estética artificial e vazia; de possuir um roteiro previsível e sem conteúdo; de ser unilateral e autoritário, por não permitir ao espectador que tire suas próprias conclusões etc. As ofensas extrapolaram o meio artístico e adentraram na seara pessoal, com o diretor Darren Aronofsky sendo rotulado por adjetivos como clipeiro e moralista. Mas qual seria o motivo para esse bombardeio de críticas negativas?

Em primeiro lugar, deve-se ressaltar que a admirável coragem do então diretor novato em jogar na cara da sociedade um problema que todos sabiam que existia, mas fingiam desconhecer. “Réquiem para um sonho” não aborda o problema das drogas relacionado à violência urbana, como fez Fernando Meirelles em “Cidade de Deus”. Aronofsky procurou mostrar sim, através de uma linguagem à época estranha à sétima arte (sobretudo ao cinema que se propõe a ser não necessariamente comercial), a tal linguagem “videoclíptica”, um panorama sombrio sobre a destruição da vida da quatro pessoas comuns pelo uso de drogas. Essa realidade cruel, exibida sem qualquer aviso – poucos estavam preparados para a mensagem do filme quando ele foi lançado – levou a maioria da crítica a uma quase que absoluta indisposição em relação à película. Afinal, não são todos que possuem a capacidade de absorver o lado positivo de uma experiência aparentemente negativa.

Devemos olhar “Réquiem para um sonho” com muita atenção e respeito. Afinal, a humanidade deve aprender com seus erros do passado e do presente, e não ignorá-los. Este é o objetivo da história humana. Buscar críticas superficiais (“clipeiro” e “moralista”) diante de uma exposição tão sincera de um problema gravíssimo, nada mais constitui do que um entrave ao nosso progresso enquanto seres sociais.

 

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